DEPRESSÃO E OS MEDICAMENTOS



Conhecida como um mal dos tempos modernos, a depressão tem atingido cada vez mais pessoas. O Ministério da Saúde estima que pelo menos 10 milhões de brasileiros sofram com a doença. Para o professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, Fernando Silva Neves, quando bem indicados, os antidepressivos são aliados importantes para o alívio dos sintomas incapacitantes, ajudando o paciente a prosseguir com suas atividades sem muitos prejuízos sociais e profissionais. Ele esclarece algumas dúvidas sobre o uso de medicação antidepressiva, tais como indicação, reações adversas e duração do tratamento.

O uso prolongado de antidepressivos pode trazer prejuízos como a dependência?
Nenhum antidepressivo provoca dependência. Como ocorre com qualquer outro medicamento, os antidepressivos podem apresentar efeitos adversos. A ocorrência desses efeitos está relacionada à classe do antidepressivo usado. Alguns podem causar constipação intestinal, hipotensão e aumento do apetite. É importante ressaltar que, quando bem indicado, os benefícios resultantes do tratamento com antidepressivos superam largamente os eventuais efeitos adversos.

A medicação é sempre o melhor tratamento para o quadro depressivo?
Estudos recentes mostraram que antidepressivos não apresentam eficácia superior ao placebo em quadros de pouca intensidade. Portanto, é possível que as psicoterapias sejam o tratamento de primeira escolha nesses casos.

Existe cura da depressão?
Atualmente não existe nenhum tratamento para depressão que promova cura. O que existe é um alívio dos sintomas para que as atividades profissionais e sociais não sejam tão prejudicadas diante de um quadro acentuado. Os antidepressivos não curam a depressão, assim como os anti-hipertensivos não curam a hipertensão. No entanto, ambos são capazes de promover a remissão completa dos sintomas. Se o paciente não obteve remissão dos sintomas com o primeiro ou com o segundo tratamento, o psiquiatra deve ir modificando o tratamento até atingir a remissão completa dos sintomas relacionados à depressão.

Além da medicação, mudança de hábitos, alimentação saudável e prática de atividade física auxiliam no tratamento?
A medicação é fundamental para o tratamento do paciente com depressão. As psicoterapias são indicadas para quadros leves e para manutenção da resposta do antidepressivo. As outras medidas citadas são importantes para a manutenção da saúde como um todo, portanto devem ser encorajadas em todos os pacientes. É importante destacar que apenas mudanças de hábitos, alimentação saudável e prática de atividade física não tratam a depressão.

Qual a duração média de um tratamento com antidepressivos?
Depende de cada caso. Em pacientes com apenas um episódio a recomendação é tratar por seis a 12 meses após a remissão completa dos sintomas. Para os pacientes com três ou mais episódios nos últimos cinco anos, a recomendação é que o tratamento deve durar por pelo menos dois anos consecutivos.

Quais as consequências de abandonar o tratamento precocemente?
A principal consequência é a recaída do quadro depressivo e todos os males associados, como o pensamento de suicídio, o sofrimento e a incapacidade laboral.

Quando o antidepressivo é contraindicado?
O que chamamos genericamente de antidepressivos, engloba cerca de 30 diferentes fármacos divididos em oito diferentes classes (cada classe é estabelecida segundo o mecanismo de ação). Alguns antidepressivos podem ser contraindicados, por exemplo, para pacientes com bloqueio AV (um tipo de arritmia cardíaca). Nesse caso deve-se usar algum outro que não interfira na condução cardíaca.Outra contraindicação é para pacientes com diagnóstico de transtorno bipolar, que não devem fazer uso da medicação durante a fase maníaca (euforia, aumento de energia, grandiosidade, etc.).

Crianças podem ser tratadas com antidepressivos?
Com certeza. No entanto, sugere-se que a apresentação dos sintomas de depressão na criança difira do adulto. Alguns sintomas podem ser sugestivos de depressão infantil como problemas de conduta, dificuldades escolares, incontinência urinária noturna, irritabilidade e apatia. Embora existam poucos estudos consubstanciando o tratamento da depressão em infantil, os resultados são bastante satisfatórios. Como as crianças são muito reativas aos estressores ambientais deve-se investigar a qualidade da relação com os pais, outros membros da família, amigos e escola. Por causa das dificuldades do diagnóstico, possivelmente a depressão infantil é mais comum do que se acredita.

Matéria publicada pela assessoria de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG.
Site: www.medicina.ufmg.br

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